Pela primeira vez um barco brasileiro participa da regata de volta ao mundo.
O iatismo é o esporte que mais trouxe medalhas olímpicas ao Brasil, em um total de 14, e é um iatista o atleta brasileiro que mais subiu ao pódio em Olimpíadas, Torben Grael, cinco vezes. Logo, os velejadores brasileiros são figurinhas carimbadas na mais famosa das regatas de volta ao mundo, certo? Ledo engano. Nas oito edições da hoje chamada Volvo Ocean Race, o país só marcou presença em quatro, e ainda assim apenas com seus mares e portos - Rio de Janeiro (três vezes) e São Sebastião serviram de ponto de parada dos navegadores estrangeiros.
Só agora, na nona edição, 33 anos após o primeiro grupo de iatistas estrear a corrida, o Brasil coloca seu primeiro barco na competição. Não por acaso, chama-se Brasil 1. A dificuldade maior ao longo dessas três décadas não foi juntar dez marmanjos dispostos a navegar por oito meses, passando por quatro oceanos e quatro continentes e enfrentando ondas de até dez metros, icebergs e tempestades. |
O Ponto de Partida
O Ponto de PartidaO desafio principal foi conseguir patrocínio. "Só depois de 14 medalhas olímpicas é que a vela brasileira pôde convencer patrocinadores e levantar os cerca de US$ 15 milhões necessários para ter um barco competitivo na Volvo Ocean Race", resume o velejador Robert Scheidt, que não participa da regata, mas é porta-voz da competição no país. "Não faltou vontade antes. O difícil foi conseguir dinheiro", concorda André Fonseca, um dos timoneiros e reguladores de velas do Brasil 1. O "1" no nome da embarcação não é apenas um sinal de que o Brasil está na competição pela primeira vez; ele também pretende indicar a posição em que o barco brasileiro quer cruzar a linha de chegada, após percorrer 57,8 mil quilômetros, o equivalente a sete vezes a extensão do litoral brasileiro. Fonseca, por exemplo, descarta a idéia de que participar da Volvo Ocean Race já é o bastante. "Estamos entrando para ganhar", resume.
Criando o Brasil 1
Criando o Brasil 1A aventura do Brasil 1, porém, não começará quando os ventos espanhóis - a largada da Volvo Ocean Race será dada no porto espanhol de Sanxenxo - estufarem as velas de cores azul, amarela e branca, marcadas pelo nome dos patrocinadores da empreitada. A peripécia começou há cerca de três anos, quando a empresa de marketing esportivo Vela Brasil começou a fazer os primeiros contatos em busca de patrocínio. Outra etapa fundamental, a construção do veleiro, teve início em outubro de 2004. Esta é quase uma aventura à parte: a embarcação tem 21,5 metros de comprimento e 5,7 metros de largura em sua área mais ampla, precisa ser leve a ponto de alcançar até 70 quilômetros por hora, resistente para suportar choques contra ondas enormes e navegar 926 quilômetros por dia. Nos barcos que competem na Volvo Ocean Race é preciso "usar fibra de carbono e muito equipamento eletrônico", comenta Robert Scheidt É como se fosse a Fórmula 1 da vela, compara. Cerca de 30 pessoas envolveram-se nessa fase, que em sua maior parte ocorreu no estaleiro ML Boatworks, em Indaiatuba, interior de São Paulo. O primeiro passo foi encomendar o trabalho de um grande campeão da Volvo Ocean Race: o neozelandês Bruce Farr, que venceu seis das oito edições da prova sem pôr os pés na água - foi o projetista dos barcos. O processo de construção propriamente dito começou com a confecção do molde do casco e do convés. "É como se tivéssemos de fazer dois barcos", conta Ricardo Ermel, da equipe de apoio do Brasil 1. "Um o molde, de madeira, e o outro o barco propriamente dito, de fibra de carbono", explica. As madeiras foram cortadas a laser, para garantir eficiência e precisão. Com o molde pronto, construíram-se dois fornos de 25 metros, para aquecer o carbono e garantir a resistência da embarcação. Entre uma camada e outra de fibra de carbono foram colocadas espuma e placas de nomex, um material leve e resistente.
Tecnologia
TecnologiaMontados separadamente e de cabeça para baixo, o casco e o convés foram unidos, sete meses depois do início das obras. As fases seguintes foram pintura (dez horas só para pintar o casco), montagem das ferragens no convés e instalação de alguns equipamentos internos. Após 35 mil horas de trabalho, o Brasil 1 saiu do estaleiro de Indaiatuba e foi levado à Marina da Glória, no Rio de Janeiro. Em razão das dimensões e do peso do barco, o trajeto de 640 quilômetros demorou três dias, com o Brasil 1 colocado em uma carreta de 24 metros. No Rio, foram instaladas peças fundamentais: mastro (de 31,5 metros de altura), quilha (4,4 toneladas), leme, cabos e sistemas eletrônicos. Em 23 de junho, ainda sem vela, a embarcação foi batizada, e duas semanas depois velejou pela baía da Guanabara. Enquanto os tripulantes testavam o barco durante o dia, a equipe de apoio fazia à noite os acertos finais na estrutura. O processo de construção salienta uma das características do Brasil 1, e mesmo de outros barcos da Volvo Ocean Race: trata-se de aventura, sim, mas muito bem planejada. Os velejadores que vão encarar o "Everest da Vela" viajarão munidos de dois computadores, um equipamento de segurança chamado epirb, que emite sinais sobre a localização do barco, telefone por satélite, fax, internet, GPS e dez câmeras de vídeo. Sim, além de se preocuparem com ventos, ondas, rotas, regulagens e obstáculos como icebergs e baleias, os navegantes ainda precisam queimar a pestana com a edição e o envio de imagens para os organizadores da prova. Toda a comunicação com a terra firme é feita via satélite. "A tecnologia é um dos pontos fortes do barco", resume Ricardo Ermel, falando sobre a embarcação brasileira. Essa parafernália eletrônica é alimentada por um gerador de eletricidade de 18 hp. Além dele, o Brasil 1 tem ainda um outro motor (de 55 hp), usado apenas para atracar e desatracar, ou em casos de emergência. Mas o motor fundamental mesmo são as velas: podem ser usadas 11 em cada uma das nove etapas e 24 durante toda a prova, para serem trocadas de acordo com as condições climáticas. O barco navega 24 horas por dia, com exceção das sete paradas nos oito meses de competição. "Os velejadores se revezam em turnos de quatro horas. É preciso velejar 24 horas sem parar, pois cada segundo é muito importante", destaca Scheidt. A correria é tamanha que alguns consertos são feitos com o barco em movimento - um dos tripulantes (André Fonseca) fez até curso especial de mergulho para fazer os reparos embaixo d'água. Para aumentar a velocidade, uma das preocupações é diminuir o peso, e, portanto, levar o mínimo de bagagem possível. Assim, nada de geladeira: os atletas levam comida desidratada (como arroz e feijão) e um dessanilizador (que purifica a água salgada). Um fogão a gás e uma panela de pressão dão conta do recado - a dieta espartana dos velejadores não comporta receitas complicadas. Todas essas preocupações visam garantir não apenas que o Brasil 1 dê a volta ao mundo com rapidez e segurança, mas também que cumpra a tarefa hercúlea à frente de adversários de peso: os barcos holandeses ABN Amro 1 (comandado pelo neozelandês Mike Sanderson) e ABN Amro 2 (comandado pelo francês Sebastien Josse), o sueco Ericsson Racing Team (comandado pelo inglês Neil Mc'Donald), o norte-americano Piratas do Caribe (comandado por Paul Cayard, dos Estados Unidos), o espanhol Movistar (comandado pelo holandês Bouwe Bekking) e o australiano Premier Challenge (comandado por Grant Wharington, da Austrália).
A Tripulação
A TripulaçãoA composição da equipe, a sofisticação da estrutura e o ânimo dos tripulantes indicam que eles de fato não estão para brincadeira. O comandante, por exemplo, é Torben Grael, que não é só o maior medalhista olímpico do Brasil, mas também o velejador que mais vezes subiu ao pódio na história das Olimpíadas. Na mais recente delas (Atenas, 2004), levou o ouro. Ele chegou a participar da regata de volta ao mundo entre 1997 e 1998, numa etapa na Austrália, mas esta é a primeira vez que faz o trajeto todo. O companheiro de Torben em Atenas, em Sidney (2000, bronze) e em Atlanta (1996, ouro), Marcelo Ferreira, será um dos reguladores de velas. A mesma função terá outro medalhista brasileiro, Kiko Pellicano, ganhador do bronze nas Olimpíadas de Atlanta (categoria Tornado). Como regulador de velas, e também como timoneiro, embarcarão no Brasil 1 André Fonseca (duas vezes campeão mundial da classe Snipe Junior) e João Signori (campeão sul-americano nas categorias Finn e Laser). Mas não apenas brasileiros subirão no Brasil 1. Seis estrangeiros compõem a tripulação, e todos eles têm no currículo a Volvo Ocean Race ou a Whitbread (nome da competição nas sete primeiras edições): o neozelandês Andy Meiklejohn (proeiro e regulador de velas), o irlandês Demian Foxall (timoneiro e regulador de velas), o espanhol Roberto Bermudez (timoneiro), o neozelandês Stuart Wilson (regulador de velas) e a australiana Adrienne Cahalan (navegadora). Completam a equipe o norueguês Knud Frostad (timoneiro) - que vai subir no barco apenas no trajeto entre Wellington (na Nova Zelândia) e Rio de Janeiro, o mais espinhoso da regata - e o brasileiro Eduardo Penido, ouro na Olimpíada de Moscou (1980) na classe 470, que será o velejador reserva.
A Competição
A CompetiçãoA tripulação fez testes com o barco n'água entre junho e agosto, no Rio de Janeiro e em Ilha Bela. Em 20 de agosto, partiu para Cascais, em Portugal, o último destino antes da Volvo Ocean Race. A competição - que pelo seu grau épico de dificuldade é chamada de "Everest da Vela" - começa em 5 de novembro em Sanxenxo (Espanha), segue em pequena regata para Vigo (também na Espanha), depois Cidade do Cabo (África do Sul), Melborne (Austrália), Welington (Nova Zelândia), Rio de Janeiro, Baltimore e Annapolis (Estados Unidos), Nova York (Estados Unidos), Portsmouth (Reino Unido), Roterdã (Holanda) e deve terminar em 17 de junho de 2006, em Gotemburgo (Suécia), parando ao todo em nove países. O primeiro colocado em cada um desses trechos ganha sete pontos, o segundo seis, o terceiro cinco e assim por diante. Os portões de pontuação (pontos perto dos quais os barcos são obrigados a passar, como Fernando de Noronha) também entram na contagem. Ao final, o barco que somar mais pontos em cada um dos trechos é campeão - ainda que não chegue em primeiro em Gotemburgo. O desafio maior é o trecho entre a Nova Zelândia e o Brasil. "É bem difícil, porque passa em latitudes próximas ao Pólo Sul, onde não há rotas comerciais, é o mar mais desolado do planeta e qualquer socorro está a centenas de milhares de milhas de distância", resume Robert Scheidt. "É justamente nesse trecho que os barcos conseguem desenvolver as maiores velocidades devido aos ventos fortes, mas é aí também que enfrentam ondas gigantes, icebergs e temperaturas negativas. Cair na água pode significar morte por hipotermia. Por isso, todos precisam se amarrar ao barco. Os icebergs só podem ser vistos de dia, à noite ficam invisíveis. É preciso ir sempre um homem na proa observando a água", descreve o velejador.
A Bosch a Bordo
A Bosch a BordoOrçado em mais de US$ 15 milhões, o projeto brasileiro contou com suporte dos setores mais diversos - de companhia aérea a academia de ginástica. A Bosch é um dos apoiadores oficiais do Brasil 1, e numa área fundamental: a empresa cedeu cerca de 100 ferramentas elétricas e a bateria e 400 acessórios que serão usados a bordo, para serviços de emergência, ou nas paradas, para manutenção mais demorada. O pacote inclui máquinas como esmerilhadeiras, furadeiras, plainas, serra tico-tico e serra circular, e acessórios como lâminas de serra e brocas para metal, madeira e concreto. Em junho, ainda antes de a equipe brasileira embarcar rumo à Europa, a empresa fez um treinamento aos profissionais envolvidos com o Brasil 1, para mostrar como utilizar e manter as máquinas ao longo da competição. Durante a Volvo Ocean Race, as ferramentas e os acessórios serão colocados em dois contêineres, que viajarão de navio e percorrerão todos os destinos de parada. Em cada um desses pontos, a tripulação sai do barco e a equipe de apoio entra nele, fazendo uma revisão geral e reforçando os ajustes que tiveram de ser feitos com urgência em alto-mar. Nessas paradas, a rede de revendedores da Bosch estará disponível aos velejadores do Brasil 1. As condições adversas que os barcos enfrentam nos oito meses da Volvo Ocean Race exigem que a tripulação leve a bordo algumas máquinas e acessórios para fazer consertos de emergência. Diante da necessidade de conjugar leveza e eficiência, a equipe brasileira acabou optando por levar ferramentas elétricas da Bosch no Brasil 1. A maioria das máquinas cedidas aos velejadores brasileiros é movida a bateria. Com isso, a equipe se livra dos fios enormes que seriam necessários para dar conta das dimensões do barco (21,5 metros de comprimento, mastro de 31,5 metros de altura). Outra vantagem é que uma mesma bateria serve em vários tipos de ferramentas, o que dispensa o embarque de muitos componentes. A linha de ferramentas a bateria da Bosch é composta principalmente de furadeiras, parafusadeiras e esmerilhadeiras, todas leves e robustas, que podem ser usadas em vários tipos de materiais.
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