Os desafios do agronegócio

Os desafios do agronegócio

O que precisa ser feito para alimentar quase 10 bilhões de pessoas nas próximas décadas

Tempo de leitura: 6 minutos

"Para nos tornarmos o principal provedor de alimentos do mundo, é preciso incrementar a eficiência e a produtividade, sem descuidar da sustentabilidade. A tecnologia terá papel crucial"

Besaliel Botelho - Presidente da Robert Bosch América Latina

Foi no final do século 18 que o economista inglês Thomas Malthus tornou famosa, pela primeira vez, uma preocupação até hoje comum: a população cresce muito, e a produção de alimentos não será suficiente para chegar a todas as bocas. Os séculos seguintes mostraram, repetidas vezes, que o alarmismo de Malthus era exagerado.

No século 20, por exemplo, a mecanização da agricultura e o melhoramento genético mudaram o cenário a tal ponto que a oferta superou a demanda. Ainda há gente que passa fome no mundo (são mais de 820 milhões de pessoas), mas não porque a produção é baixa.

Nas últimas décadas, porém, surgiram fatores com os quais o planeta ainda

não tinha se deparado, ao menos não em grande intensidade: mudanças climáticas – em parte agravadas pela própria atividade agrícola — e melhoria do padrão alimentar nos países em desenvolvimento.

“Temos um cenário de restrição de terras, limitação de insumos como água, fertilizantes e químicos, e uma mudança climática agressiva que impacta toda a lógica de operação agrícola”, destaca Naldo Dantas, especialista no desenvolvimento de novos negócios da Bosch América Latina.

A América Latina, em particular o Brasil, tem papel decisivo nessa paisagem. O país está entre dos maiores produtores de vários dos produtos do setor.

“O principal desafio da agricultura hoje é como produzir mais e melhor com menos”, resume o zootecnista Rafael Zavala, representante, no Brasil, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Grafico consumo de comida cresce mais nos paises em desenvolvimento

Produzir mais com menos trabalhadores

pessoas trabalhando na agricultura

Outro ineditismo, em comparação a períodos anteriores, é que hoje há mais gente morando nas cidades do que no campo – consequentemente, há também menos trabalhadores na agricultura. No mundo, apenas um em cada quatro se dedica a atividades agrícolas. No Brasil, um em cada dez. Teremos de gerar mais comida com menos mão de obra. Portanto, com mais tecnologia.

“O uso de tecnologias pode alavancar a produção e, ao contrário do que se imagina, proporcionar novos postos de trabalho. Lógico que, para isso, é preciso qualificar os trabalhadores e oferecer salários mais atrativos”, comenta o engenheiro agrícola Marcos Roberto da Silva, professor do Centro de Ciências Agrárias, Ambientais e Biológicas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).

Produzir mais usando menos água

Produzir mais usando menos água

Lavouras irrigadas são mais produtivas: ocupam 20% da área agricultável do planeta e respondem por 40% da produção. Essa técnica, portanto, será essencial para a agropecuária fazer frente ao desafio de alimentar o mundo – e também para minimizar o impacto das mudanças climáticas nas plantações. Só que ela consome bastante água. “O volume disponível para agricultura terá que competir com as necessidades de abastecimento humano e industrial em decorrência do aumento da população”, afirma o professor Jarbas Honório de Miranda, Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq), especialista em irrigação.

No Brasil, a irrigação é responsável por mais da metade da demanda de água.

Produzir mais sem poluir

A agropecuária é responsável por quase 20% das emissões de gases do efeito estufa no mundo. No Brasil, são 22% – o que faz dela a segunda maior fonte desse tipo de poluição, e com ligação estreita com a primeira (desmatamento).

Na agropecuária propriamente dita, as práticas que mais prejudicam o planeta são a emissão de metano pelos bois (por meio de gases e arrotos), o uso de fertilizantes e adubos e a queima de resíduos. Em todos os casos, o quadro piorou nas últimas décadas.

O representante da FAO no Brasil destaca a necessidade de melhoria no solo, plantando em áreas degradadas como forma de captar o carbono emitido pela agropecuária.

“A maior parte das zonas degradadas do planeta que não são desérticas originalmente foi degradadaa pela agricultura. A regra de ouro

é manter o solo com cobertura vegetal, criar meios para uma agricultura que seja menos erosiva.”

A poluição, na agricultura, também está relacionada ao destino de agroquímicos. Uma pesquisa do Ministério da Saúde encontrou pesticidas na água de 1.396 municípios em que o teste foi feito – na maioria das vezes, abaixo do limite estipulado pela legislação brasileira, menos rigorosa que a europeia. “O uso de herbicidas ainda pode melhorar muito em termos de eficiência”, afirma Bruno Bragazza, da Bosch.

Saiba mais sobre a Solução Bosch de Pulverização Inteligente, que reduz o uso de herbicidas

Viloes do efeito estufa no agro brasileiro

Reduzir desperdícios

Camera em um armazem

Estimativas da FAO indicam que, a cada três toneladas de alimentos produzidas no planeta, uma se perde ao longo da cadeia de distribuição ou do consumo. Em outras palavras, consome-se muita água e lançam-se gases de efeito estufa na atmosfera para gerar lixo. Comida desperdiçada significa também água desperdiçada, destaca Zavala.

Naldo Dantas observa que as perdas envolvem diferentes etapas e atores: a fazenda, o Estado (como gestor de infraestrutura públicas), o processador de alimentos, o supermercado, o consumidor. O desperdício é enorme ao longo da cadeia, mas às vezes é pouco percebido em cada uma dessas fases. “Um dos desafios é enxergar a perda: onde ela ocorre, por que ela ocorre. Outro é como reagir a ela.”

Essa é uma das áreas em que a Bosch tem atuado com mais intensidade. A empresa já desenvolveu soluções para reduzir perdas em momentos tão distintos como queimadas, armazenagem, gerenciamento de máquinas agrícolas, criação de gado de corte e estocagem de vacinas.

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