Produção agropecuária: presente e futuro

Produção agropecuária: presente e futuro

Tempo de leitura: 6 minutos

Mesmo com restrições de recursos naturais, o planeta vai suprir a demanda por alimentos de uma população crescente? Uma parte da resposta está na tecnologia

Em um mundo onde o uso racional de recursos naturais é uma necessidade cada vez mais premente, como expandir a produção agropecuária, provocando o menor impacto ambiental possível? O planeta será capaz de suprir a demanda por alimentos de uma população crescente? Conseguirá, diante de restrições de terras e limitação de insumos, aumentar a produção em 70% até 2050, conforme estimativa da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO)? Qual o papel da tecnologia nesse contexto?

Para discutir essas e outras questões relacionadas ao tema, o site da Bosch conversou com Naldo Dantas, especialista no desenvolvimento de novos negócios na Bosch América Latina, e com o professor e pesquisador da Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq) Jarbas Honório de Miranda, membro da American Society of Agricultural and Biological Engineers (ASABE-EUA).

Confira os principais trechos das entrevistas.

Meta na produção de grãos

Foto de Naldo Dantas
Naldo Dantas - Especialista no desenvolvimento de novos negócios na Bosch América Latina

Naldo Dantas – Em relação ao número estimado pela FAO [de que a produção de grãos terá de aumentar para 3 bilhões de toneladas por ano até 2050], 80% virão do ganho de produtividade, 10%, da expansão de áreas cultiváveis, e outros 10%, da substituição de culturas de nicho por commodities. Será preciso ter um olhar mais clínico da aptidão de cada região para tirar o máximo daquela estrutura com sustentabilidade. Não colocar uma cultura muito demandante em um solo pobre ou uma cultura pobre em um solo rico, onde poderia ter mais volume.

3 vezes

Foi quanto a agricultura no mundo cresceu nos últimos 50 anos

Soluções digitais como aliadas

Foto de Jarbas Honório de Miranda
Jarbas Honório de Miranda - Professor e pesquisador da Escola Superior de Agricultura da USP (Esalq) e membro da American Society of Agricultural and Biological Engineers (ASABE-EUA).

Jarbas de Miranda – Além da instrumentação e do monitoramento de situações no campo por meio da aplicação de sensores eletrônicos, essas novas tecnologias digitais permitirão a coleta de grandes quantidades de dados, possibilitando aos produtores serem mais eficientes. Na minha opinião, a agricultura digital possui um grande potencial a ser explorado, pois ainda enfrenta problemas de conectividade no campo. A combinação de tecnologias como a IOT [sigla em inglês para Internet of Things, ou Internet das Coisas], com capacidade de coletar, transmitir e analisar dados, fornecerá aos produtores o embasamento necessário para a tomada de decisões operacionais.

Naldo Dantas – As tecnologias que hoje existem serão potencializadas por sensores e algoritmos, pois só consigo aplicar bem essas soluções se for capaz de interpretar, processar e dar uma lógica para o que estou enxergando. E a Internet das Coisas é justamente o drive de atuação da Bosch. Levamos competitividade e construímos soluções para os fabricantes de todos esses setores. Se empreendermos esforços para replicar aprendizados de uma área a outra do globo, vamos criar um balanço mais sustentável que dará vazão a essa demanda de volume de crescimento populacional.

A produtividade que temos hoje foi trazida por uma tecnologia que entrega o máximo considerando de maneira uniforme uma área muito grande. Não consigo responder, metro a metro, às variações do ambiente na hora de definir semente, aplicar químicos, prescrever fertilizantes. A partir do momento em que isso for possível, teremos uma explosão de produtividade

prevê Naldo Dantas, especialista no desenvolvimento de novos negócios na Bosch América Latina
Plantio inteligente, eficiência no campo

E o pequeno produtor?

Jarbas de Miranda – A ideia é tornar a agricultura digital acessível a todos os produtores, do pequeno ao grande. Nesse contexto, aspectos como instrumentação, conectividade, monitoramento e mercado podem auxiliar nas atividades do campo, reduzir perdas e aumentar rentabilidade. Com esse conjunto de ‘ferramentas’, o pequeno produtor terá a possibilidade de melhorar a sua atividade agrícola e, consequentemente, suprir a demanda por alimentos, tanto em quantidade como em qualidade.

Naldo Dantas – Na agricultura familiar, a discussão da tecnologia deveria estar muito mais na saída do campo de um produto de qualidade para chegar com alto valor agregado ao consumidor final do que numa lógica de agregar tecnologia para mitigar risco ambiental. O tempo de reação é diferente. Para contar com um sensor e um sistema automatizado, você precisa ter como reagir e, na agricultura familiar, os tempos de estocagem são baixos. Eu, como Bosch, colocaria muito mais energia em levar o pequeno produtor para o mercado do que trazer grandes ganhos de produtividade via apoio tecnológico no manejo.

Uso consciente de recursos naturais

semente plantada

Jarbas de Miranda – É preciso pensar no que deve ser feito para buscar o aumento da produtividade mediante uma utilização racional dos recursos naturais — especialmente da água e do solo. Há diversas formas de se fazer o manejo racional desses recursos, e uma delas é a aplicação da automação — por meio da utilização de sensores eletrônicos — e de aplicativos que podem nortear o produtor rural a coletar dados e tomar decisões para controlar as variáveis que fazem parte do processo agrícola.

Inovação para evitar desperdício

Grãos caindo da semeadeira

Naldo Dantas – A grande dificuldade é fazer com que as perdas do agricultor, do pessoal do armazém, dos transportadores, dos exportadores, do porto apareçam de maneira estruturada no ponto e no momento certos, quando é possível ter reação. Não adianta falar no final que 8% sumiram. É preciso dar condições de atuar. Na Bosch, temos os três pontos da cadeia: os olhos, que são os sensores; o cérebro, uma camada de inteligência artificial gigantesca; e elementos de atuação, por meio da Rexroth, com sistemas de motores, válvulas, uma infinidade de componentes que reagem.

Produzir mais, sem desmatar

criança e adulto segurando uma planta

Jarbas de Miranda – É possível e já vem acontecendo. Segundo informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em torno de 66% do território nacional ainda está coberto por vegetação nativa, cuja situação é difícil de ser encontrada em outro país. Acredito que esforços entre governo federal e setor agropecuário podem auxiliar a integrar mais o público e o privado e a elaborar ‘modelos’ que venham a beneficiar agricultores que procuram manter áreas de preservação em suas propriedades rurais.

“Vejo a Bosch preocupada em dar uma solução mais ampla para essa questão do custo do alimento. Conseguimos colaborar gerando tecnologias com valor acessível. Além disso, o aprendizado que temos na cadeia logística pode contribuir para que as perdas reduzam. À medida em que se consegue aumentar a escala e reduzir perdas, vamos ter um alimento de baixo custo na ponta”

afirma Naldo Dantas, especialista no desenvolvimento de novos negócios na Bosch América Latina

Pecuária e emissão de gases

Boi

Naldo Dantas – A pecuária clássica (extensiva) é a que predomina no Brasil. O custo mensal é menor, mas o impacto ambiental é maior. Quando se vai para a segunda modalidade, com manejo básico do pasto, passa-se de meio para um boi por hectare. Isso já reduz de 78 para 47 o equivalente a quilos de emissão por quilos de carcaça. O outro salto é quando se vai para um pasto mais trabalhado, e apoiado pelo uso do proteinado e energético como complemento alimentar, o que faz com que o boi tenha maior ganho de peso em menor tempo. Com isso, salta-se para 1,7 boi por hectare. Finalmente, entramos na quarta camada que é o pasto intensivo, manejado agricolamente e potencializado pelo uso de ração. Nele, um boi, que demoraria dois anos para engordar, consegue isso em oito meses, e a densidade aumenta para 3,2 animais por hectare. Com isso, todo o impacto cai para uma taxa de 31. E o custo relativo é menor. O que a Bosch tem feito dentro de suas tecnologias é apoiar a intensificação sustentável do manejo de pastos e dos confinamentos, gerando novo valor econômico e ambiental para o pecuarista e para a sociedade.

Agregando valor para a pecuária e para a sociedade

foto boi

Naldo Dantas – A pecuária clássica (extensiva) é a que predomina no Brasil. O custo mensal é menor, mas o impacto ambiental é maior. Quando se vai para a segunda modalidade, com manejo básico do pasto, passa-se de meio para um boi por hectare. Isso já reduz de 78 para 47 o equivalente a quilos de emissão por quilos de carcaça. O outro salto é quando se vai para um pasto mais trabalhado, e apoiado pelo uso do proteinado e energético como complemento alimentar, o que faz com que o boi tenha maior ganho de peso em menor tempo. Com isso, salta-se para 1,7 boi por hectare. Finalmente, entramos na quarta camada que é o pasto intensivo, manejado agricolamente e potencializado pelo uso de ração. Nele, um boi, que demoraria dois anos para engordar, consegue isso em oito meses, e a densidade aumenta para 3,2 animais por hectare. Com isso, todo o impacto cai para uma taxa de 31. E o custo relativo é menor. O que a Bosch tem feito dentro de suas tecnologias é apoiar a intensificação sustentável do manejo de pastos e dos confinamentos, gerando novo valor econômico e ambiental para o pecuarista e para a sociedade.

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